Por que uma criança que tem alterações sensoriais pode demorar mais para conquistar autonomia nas atividades de vida diária.
"Meu filho está com dificuldade em cortar a unha, e cortar o cabelo está sendo uma demanda complicada em casa, porque ele grita muito e chora — parece que está sofrendo. Por que isso?" "Meu filho comia diversas texturas, costumava ter um repertório alimentar tão grande, e do nada parou; faz ânsia de vômito só de ver um alimento mais mole. Por que isso?" "Meu filho não consegue ir a um shopping por conta do barulho, fica superirritado quando tem criança chorando perto e não consegue se concentrar quando tem muito barulho. Por que isso?"
Como abordamos na MenthalHelp
Nós, adultos, estamos acostumados — e acaba virando automático — a vestir uma roupa, escovar os dentes ou comer algo que, para nós, é super simples e comum. Mas, para algumas crianças, principalmente as que estão começando a adquirir algumas habilidades, é algo que demanda muito, muito esforço. Isso acontece porque o nosso cérebro precisa entender tudo o que acontece ao mesmo tempo: precisa discriminar o que é aquilo, sentir de uma forma organizada se aquilo é perigo, se precisa fazer algo referente àquela situação que acabou de acontecer, e mandar uma resposta para reagirmos de forma adequada. Quando essa informação não chega ao cérebro de forma organizada, por conta de alguma alteração sensorial, o toque da roupa, o movimento do corpo, o equilíbrio e a força que precisa fazer com as mãos podem sobrecarregar, incomodar, distrair e até fazer com que a criança evite aquela situação ou precise de mais ajuda para fazer algo que deveria parecer simples, mas que se torna complexo e difícil.
Sinais de alerta
Quando essas alterações acabam limitando ou dificultando as ocupações e as atividades que são primordiais na vida daquele indivíduo, como tomar banho, escovar os dentes e interagir socialmente, entre outras.
Quando a família diz que a criança "vai ter que aguentar" aquilo, ou acaba forçando-a a fazer mesmo quando ela demonstra desconforto ou sofrimento — o que pode gerar, além da dificuldade por questões sensoriais, uma aversão.
Perguntas frequentes
1. Meu filho não para quieto. Isso sempre significa TDAH? Não. A agitação pode ter diferentes causas, inclusive relacionadas à forma como a criança busca ou reage aos estímulos do ambiente. Algumas crianças precisam de mais movimento para organizar o corpo e manter a atenção. 2. Em quanto tempo meu filho vai conseguir ganhar autonomia e fazer a escovação (ou outras atividades) sozinho? Não existe um tempo igual para todas as crianças. Cada uma evolui no seu ritmo, mas, com estímulos adequados e participação da família, os avanços acontecem de forma gradual. 3. Meu filho tampa os ouvidos com barulhos que todo mundo acha normais. Por quê? Porque ele percebe os sons de forma mais intensa. Nesses casos, ambientes barulhentos podem causar muito incômodo. 4. Se meu filho tem dificuldade sensorial, ele vai ter isso para sempre? Com intervenções adequadas e estratégias que vamos ensinando e adequando ao dia a dia, ele pode aprender a lidar melhor com os estímulos e se tornar cada vez mais independente. O perfil sensorial dele não muda — o que muda é a forma como ele vai responder àquela situação.
O que esperar
Sinceramente, depende muito de cada criança. Não existe um prazo exato, porque cada uma tem seu próprio ritmo e suas dificuldades. Geralmente, muitas famílias já começam a perceber pequenas mudanças nas primeiras semanas de estimulação, como a criança tolerar melhor algumas situações, participar mais das atividades, conseguir permanecer por mais tempo em uma tarefa, fazer mais contato visual e aceitar o toque. Tudo se trata de continuidade e assiduidade na terapia e de participação da família: seguir as orientações e, principalmente, tentar não fazer pela criança o que ela consegue fazer sozinha, não forçar situações e respeitar o tempo e o limite de cada criança. Toda intervenção deve ser feita de forma gradual. SUGESTÃO DE OUTRO TEMA CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa)
Referências
ISMAEL, N.; LAWSON, L. M.; HARTWELL, J. (2018). Relationship Between Sensory Processing and Participation in Daily Occupations for Children With Autism Spectrum Disorder. American Journal of Occupational Therapy. BARROS, V. M.; FOLHA, D. R. S. C.; PINHEIRO, R. C.; DELLA BARBA, P. C. S. Processamento sensorial e engajamento: uma revisão sistemática. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional (UFSCar). Intervenção terapêutica: integrando sentidos para promover autonomia em crianças autistas nível 3. Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro (2024). Resolução do COFFITO sobre Integração Sensorial (não é artigo): o COFFITO reconhece a Integração Sensorial como recurso terapêutico da Terapia Ocupacional, visando favorecer o desempenho ocupacional e o engajamento nas Atividades de Vida Diária (AVDs), nas Atividades de Vida Prática (AVPs), na participação social, no brincar, na educação e no lazer.
